DOCUMENTÁRIO - ARTE NA COMUNIDADE NOIVA DO CORDEIRO

 

 

 

 



Categoria: Galeria e Textos
Escrito por noivadocordeiro às 23h32
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      As chuvas, estradas de terra e os defeitos no carro não nos impediram de chegar à Noiva do Cordeiro. Em todas as visitas, algum contratempo nos surpreendeu pelo caminho. Mas passar por esses obstáculos valeu a pena. Encontramos um lugar cheio de surpresas positivas e de pessoas únicas, que nos receberam desde o primeiro instante com carinho e humildade.
      Muitas das características da comunidade estão também em nós, o que facilitou a identificação do nosso grupo com os habitantes do local. Conversas, rodas de violão e brincadeiras serviram para que pudéssemos encontrar esses pontos comuns, de certa forma inexplicáveis, que nos uniram a essas pessoas.
      Cada café da manhã, cada almoço ou jantar, cada vez que chegamos e encontramos o quarto aconchegante (sempre o mesmo) com as camas arrumadas para nós, tudo isso guarda um pouco dessa vivência singular.
      Percebemos também as qualidades exclusivas desses indivíduos, que vivem em harmonia e mostram a importância de sua união para cada visitante que vai conhecer o local onde moram. 
      Com o tempo, a convivência com os moradores de Noiva do Cordeiro foi se transformando em amizade e a troca de experiências com nossos novos amigos não serviu apenas para a realização do trabalho, já que foi um aprendizado para nossas vidas.
      Este blog, mais do que um produto de nosso Projeto Experimental de Jornalismo, é um presente como forma de gratidão a essas pessoas que dividiram conosco suas histórias, sorrisos, lágrimas, contos e cantos. Obrigada também a todos que contribuíram com seus dons (Léo Ladeira, Tony Avelar e Juliana Gonçalves) para que realizássemos este lindo trabalho.


Helen Murta
Raquel Roscéli
Samara Avelar
Yasmin Santana



Categoria: O Blog
Escrito por noivadocordeiro às 15h10
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VÍDEO NOIVAS

      Erick integra o grupo Vídeo Noivas, que produz telejornais, filmes para homenagear os moradores e retrospectivas anuais sobre a rotina do local. O passado da comunidade também é um dos assuntos abordados nessas produções audiovisuais, como acontece em um filme que conta a história de Dona Delina. Esse vídeo é exibido para os visitantes que chegam ao local.
      As personagens são interpretadas pelos moradores do vilarejo. Erick explica que foram escolhidas pessoas que têm maior habilidade para desempenhar os papéis principais, mas grande parte da população do lugar atuou. A filha da matriarca, Elaine, desenvolveu o roteiro.
      O grupo surgiu a partir da necessidade dos moradores de prestar homenagens às pessoas da comunidade, de acordo Erick. “Tivemos a ideia de fazer, todo ano, uma retrospectiva que saía no formato de jornal e depois fomos criando outras coisas, como o filme sobre Dona Delina, além de outros vídeos”, diz. Ele explica que, quando o Comitê para Democratização da Informática (CDI) foi instalado no local, os habitantes passaram a usar os recursos do computador para produzir os vídeos.
      Erick e sua irmã, Iara Araújo Vieira, são responsáveis pelas gravações e edições dos filmes, função que, segundo ele, foi determinada pelo interesse que os dois têm por essa área. Ele destaca, no entanto, que todos podem fazer sugestões, atuar e contribuir para esse processo. “Grande parte das ideias surge em rodas de conversa”, afirma.
Telejornais são utilizados para retratar a realidade local, expor suas dificuldades, além de buscar novos recursos para o grupo. Os habitantes gravam, apresentam, se entrevistam, editam as imagens e postam os vídeos no youtube.


      Nesses programas, podem ser assistidos comerciais criados por eles, como uma propaganda de tapetes. “Esse vídeo, na verdade, foi um plágio”, brinca Erick. Ele diz que a produção foi inspirada em um anúncio de uma batata americana e, por acharem-no engraçado, os moradores decidiram recriá-lo. Existem, ainda, duas outras propagandas feitas pelo grupo.


      De acordo com Erick, os vídeos servem para informar os habitantes do vilarejo em relação ao que está acontecendo no local, como novos projetos ou atividades da Associação. Além disso, têm o objetivo de explicar o funcionamento da comunidade para as pessoas que vêm de fora. “Geralmente, quem assiste só o documentário da GNT e vem para cá não tem uma ideia completa em relação à realidade da comunidade. Quando mostramos um filme a partir do nosso olhar, podemos esclarecer algumas dúvidas dos visitantes e eles passam a ter novas perguntas. Essas pessoas passam a ter uma visão mais próxima da nossa”.
      Erick compara as funções do teatro e do vídeo: “O teatro emociona mais. E na questão da educação, por exemplo, o teatro passa melhor a mensagem que um vídeo. Os filmes funcionam mais com uma ferramenta documental que de ensino, como uma prestação de contas para as pessoas”.
      E ele já tem alguns planos para o Vídeo Noivas. O morador pretende começar em novembro a produção do filme de final de ano e tem a intenção de refazer o longa-metragem sobre Dona Delina, que, para ele, foi realizado com recursos técnicos escassos e com pouca disponibilidade de tempo. “Agora, a gente pode caprichar mais. Temos uma câmera bacana, microfones de lapela, equipamento de som e notebooks melhores para a edição de vídeo”, afirma.



Categoria: Galeria e Textos
Escrito por noivadocordeiro às 10h34
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FALE CONOSCO

     Rua Maria Senhorinha de Lima, n° 5
     Caixa Postal 18, Noiva do Cordeiro.
     Belo Vale – MG
     CEP: 35473-000

     Tel: (31) 37341550

 



Categoria: Contatos
Escrito por noivadocordeiro às 10h06
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MÚSICA - CORAL NOIVAS

 

     

      Celso Geraldo Maciel mostra que sempre gostou de música e foi ela que o aproximou da comunidade. Ex-morador de Córrego Pintos, outro vilarejo de Belo Vale, foi convidado para tocar em um showmício na época em que Rosalee era candidata a vereadora. Ele conta que as habitantes de Noiva do Cordeiro que estavam no local gostaram das músicas e animaram a apresentação. “Passei a fazer o showmício mais pra elas do que para o próprio candidato que eu apoiava”, diz.
      Quando Celso começou a trabalhar em uma região próxima de Noiva do Cordeiro, pediu abrigo e foi acolhido. Na época, Rosalee disse que ele poderia ficar lá e brincou que, para pagar o aluguel, bastava que levasse consigo o violão. E o cantor começou a conviver cada vez mais com os habitantes do distrito.
      A música também teve um papel fundamental na adaptação do músico ao local. Celso mostra que, em uma das reuniões, pediram que ele desse um depoimento e, por causa de sua timidez, resolveu tocar uma canção ao invés de falar. Para ilustrar o que aprendeu no lugar, tocou “É preciso saber viver”, de Roberto Carlos. Com o tempo, foi se sentindo cada vez mais atraído por Noiva do Cordeiro. “Nunca mais consegui me desligar”, afirma. Começou a namorar Elaine, até se casar com ela.


      Celso acredita que a relação dos habitantes do povoado com a música “é algo espontâneo”. Ele atribui os resultados do grupo ao amor e à união que existe entre eles. As canções complementam peças teatrais, casamentos, servem para prestar homenagens e para a recreação. O violonista é responsável pelo treinamento dos integrantes do coral, de acordo com Keila. Ela conta como o grupo foi formado: “Celso veio morar com a gente, como ele sabe muito de música e começou a tocar pra gente, surgiu a ideia de cantar com ele”. De acordo com ela, os encontros do coral não costumam ser planejados, são realizados quando existe tempo disponível para isso.
      Os integrantes do grupo entoam algumas canções do repertório de Celso e fazem versões de outras músicas, adaptando as letras para retratar a rotina do lugar. Uma delas foi criada a partir de Ave Maria da Rua, de Raul Seixas. O texto foi escrito para a matriarca. “No milho dos quintais, na mesa do café, no amor dos festivais, é mãe, é pai. Tu estás, tu estás, no tapa e no perdão, nos olhos do coração”, canta Keila.

 



Categoria: Galeria e Textos
Escrito por noivadocordeiro às 09h46
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TEATRO - QUINTA GERAÇÃO

 

      De acordo com Flávia, as apresentações de teatro não são apenas realizadas em comemorações e festivais, mas também quando é preciso passar ensinamentos para as crianças e para outros habitantes. Esse papel educativo é destacado por vários moradores do local, como é o caso de Erick: “A principal função do teatro é educar, manter o que nós temos. É a de mostrar algo que não está dando certo na comunidade de uma forma em que as pessoas possam ver que isso não é bom para elas”. Keila Fernandes Pereira também expõe o valor das peças para o aprendizado. "A importância maior do teatro aqui é a de conscientizar as pessoas. Em todas as questões. Se você quer passar alguma coisa, principalmente para os mais jovens, ao invés de você chamar e falar, mostrar com o teatro é muito melhor. A pessoa entende bem a mensagem e ela se vê na situação", conta.
      Selma é uma das integrantes do grupo de teatro, chamado Quinta Geração. Ela diz as mensagens são passadas através dele de forma divertida, ao mesmo tempo em que promovem a reflexão. Para fazer parte das peças, segundo ela, basta ter interesse: “Criança, jovem, adulto... Participa quem quer, quem gosta”, afirma. A moradora tem muitas lembranças positivas do teatro e destaca o papel de Fantasma da Ópera como o mais prazeroso dos que já desempenhou. “Na verdade, ele era um pouco mal, mas tinha uma história triste. Então, eu adorei fazê-lo”, conta. Selma diz que os estilos das peças são variados, mas ela prefere as comédias, assim como grande parte da população local.


      O teatro contribuiu de forma decisiva para a vida de Érick. O morador tinha dificuldades de assumir sua homossexualidade, até que resolveu fazê-lo por meio de uma peça. E ele conta um pouco mais dessa história. "Aqui na comunidade não existia nenhum gay assumido e muita gente do meu círculo de amizades sabia que eu era gay. Eu tinha um grande medo de rejeição, pois acredito que quanto mais você ama as pessoas, mais você precisa da aprovação delas. Então, surgiu a ideia de se fazer um teatro. Foi uma lição. Tanto para mim como para a comunidade inteira", diz.
      Keila descreve o teatro de Noiva do Cordeiro como uma “novelinha”. Ela diz que essas peças são muito diferentes das atuações profissionais. Selma tem a mesma opinião. Para ela, a disparidade existe porque os integrantes do grupo não dominam as técnicas teatrais: “Nós não sabemos nada de teatro. A gente faz porque gosta, porque ama muito, mas ninguém tem uma instrução de como se faz um teatro. A gente gosta, tem vontade e faz, do jeito que a gente acha que está ao nosso alcance”.
      São realizados festivais anuais de teatro, em que se selecionam vários grupos por meio de sorteio e as apresentações são avaliadas por um júri composto por moradores. As pessoas que possuem maior facilidade para escrever as peças ajudam as outras no desenvolvimento dos textos.

 


      Essa arte também é utilizada em homenagens e para contar a história da comunidade. As memórias e os assuntos relativos ao cotidiano da população são representados pelos próprios moradores, existindo também alguns vídeos, como o filme que aborda a história do povoado desde a sua fundação. Assim como nas outras formas de produção comunicacional, a população local é responsável pelo roteiro, pela edição e pelas gravações, além de atuarem no vídeo.


 



 

 



Categoria: Galeria e Textos
Escrito por noivadocordeiro às 09h32
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A COMUNICAÇÃO

      Em Noiva do Cordeiro, é comum encontrar um aviso pregado na parede da casa-sede, ou até mesmo nos guarda-roupas. Devido ao fluxo de pessoas, é preciso deixar recados escritos para que todos saibam onde encontrar o cobertor de casal, os lugares em que devem ser colocadas as louças sujas ou as pilhas usadas. Os bilhetes também são usados para que os moradores se interem em relação aos eventos que serão realizados na comunidade.
      O morador Erick Araújo Vieira mostra que não é preciso distribuir os panfletos, já que a maioria das pessoas passa pela casa-mãe e pode se informar por meio dos cartazes afixados na parede e nas geladeiras. Ele destaca a importância desses comunicados para a organização e atualização dos moradores. Erick também explica que os bilhetes são feitos a partir da necessidade do povoado em cada momento e não existe uma pessoa responsável pela confecção desses folhetos, já que qualquer um pode fabricá-los.

 

 

      Mensagens de agradecimento e faixas também são elementos que facilitam a comunicação entre os habitantes do local. Elaine destaca a interação boca-a-boca como outro instrumento importante para o convívio no povoado.




      Os moradores também produzem jornais e criaram um site. O portal da comunidade é coordenado e mantido por representantes do local. A página traz fotos, notícias e o telefone de contato de Noiva do Cordeiro, além de outras informações sobre o lugar. Essa organização interna também envolve a coleta de dados da rotina vilarejo, como fotografias e anotações. O site foi desativado momentaneamente para manutenção, mas Erick afirma que pretende reformulá-lo e colocá-lo no ar novamente.
      As pessoas fazem reuniões sempre que precisam tomar decisões. “Tudo o que resolvemos fazer aqui é feito em conjunto, para o bem da comunidade”, afirma Flávia. Problemas no povoado são frequentemente solucionados através de peças teatrais. O grupo de teatro é um dos quatro existentes em Noiva do Cordeiro, juntamente com o de dança, um coral e um grupo de produção de vídeos. Aroldi comenta como essas atividades retratam a convivência entre os moradores: “É assim a comunidade: todo mundo unido, trabalha junto, se diverte junto. Não tem separação. Os idosos, as crianças, os jovens, todo mundo junto. E é ótimo, maravilhoso isso aqui, nunca quero mudar daqui”.

 



Categoria: Galeria e Textos
Escrito por noivadocordeiro às 01h38
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AS PARTICULARIDADES DE NOIVA DO CORDEIRO

 

      A contribuição de Pedro Henrique Fernandes envolve seu domínio de informática e os conhecimentos adquiridos no período em que estudou em Belo Horizonte. Ele tem 13 anos e nasceu em Noiva do Cordeiro. O jovem conta que percebe muitas diferenças entre os garotos de sua idade que vivem no distrito e aqueles que moram na capital mineira. “Os adolescentes que não são da comunidade pensam muito em festas e em garotas. Aqui, gostamos de brincar, é outra coisa”, conta ele.
      O contato com pessoas de outras cidades fez com que Elaine percebesse diferenças entre o modo de falar dos moradores de Noiva do Cordeiro e o de outras localidades. Com objetivo de conseguir a carteira de habilitação, Elaine passou alguns dias na capital estudando legislação. “Às vezes, falo as coisas e as pessoas não me entendem muito bem. Acho que nós, de Noiva do Cordeiro, desenvolvemos uma linguagem própria”, revela.



      Aroldi também destaca a divergência entre o relacionamento das pessoas de fora e as que pertencem ao povoado. Ele descreve a convivência  entre os moradores de Noiva do Cordeiro como uma relação de confiança total, diferentemente do que acontece nos outros lugares que já morou, como São Paulo, Belo Horizonte e Montes Claros.  “O que liga as pessoas é o apreço que existe entre elas. Considerar o sentimento dos outros é o que gera essa união que temos aqui na comunidade”, afirma Aroldi.
      Acostumado a dirigir na capital mineira, ele, além dos outros serviços que presta dentro da comunidade, trabalha como motorista em Noiva do Cordeiro. Muitas vezes, Aroldi é responsável por levar e buscar representantes do vilarejo que participam de reuniões e eventos em cidades próximas, ou por atender a necessidades particulares de outras pessoas do lugar. Ele diz que existe um forte respeito entre os habitantes do lugar e uma grande confiança no trabalho que cada um exerce.

 

      Mesmo com a  diferença entre o número de homens e mulheres, Aroldi explica que as tarefas costumam ser realizadas por ambos os sexos, de acordo com a capacidade de cada um. Ao se lembrar de quando seu filho, que hoje tem três anos, era recém-nascido, ele conta que  dividia o trabalho igualmente com sua esposa. “Eu costumava levantar à noite e trocar as fraldas também”, diz.
      Essa ideia de cumplicidade também se estende aos amigos e parentes, não sendo exclusividade da relação entre marido e mulher.  De acordo com Aroldi, isso pode ser percebido em diversas atividades realizadas em Noiva do Cordeiro. Como exemplo, ele destaca os mutirões para plantio e colheita na lavoura. Nessas situações, as mulheres ajudam nos trabalhos típicos dos homens, já que estes são minoria.
      O casamento no vilarejo costuma ser informal, não necessariamente registrado em cartório. Algumas pessoas  se unem dentro da própria comunidade, como Aroldi, que é casado com Selma Resende Fernandes. Elaine conta que seu primeiro marido era seu primo. Ela viveu com ele durante oito anos e teve um filho, Marco Antônio Fernandes Emediato. Há cinco anos, se separaram. Elaine, então, se casou com Celso, que não era da comunidade, e agora vive com ele em Noiva do Cordeiro. Seu ex-marido continua morando no vilarejo. Ela mostra a importância da consideração e do respeito nessas relações: “Quando, em um casal, um dos dois deixa de gostar do outro, as pessoas esperam o sofrimento passar para se relacionarem com algum deles. Enquanto sabem que podem machucar alguém, elas não entram naquela história”.
      Flávia explica que a convivência harmoniosa no distrito é fruto do esforço de cada um pelo bem coletivo: “Isso não é uma coisa tão natural, a ponto de não trabalharmos para que aconteça. A gente trabalha. Para ser unido, para respeitar o outro. Isso não é mágica, é algo que nos propomos a fazer”
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Categoria: Galeria e Textos
Escrito por noivadocordeiro às 01h13
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LOCALIZAÇÃO

 

Clique na imagem abaixo para visualizar o mapa panorâmico em detalhes

 

 



Categoria: Onde estamos
Escrito por noivadocordeiro às 00h43
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O TRABALHO NA COMUNIDADE

 

     

      O trabalho na comunidade é dividido de acordo com as preferências dos habitantes do lugar, segundo Elaine. Apesar da separação de afazeres, no entanto, as pessoas exercem outras tarefas além das que foram designadas para desempenhar, de acordo com as necessidades da comunidade. Aroldi explica que trabalha em várias áreas. “Faço um pouquinho de cada coisa”, diz. Elaine afirma que o vilarejo tenta ser auto-sustentável para que os moradores não precisem deixar o local.

 

      Os habitantes produzem a maioria dos alimentos que consomem, como feijão, milho e café. A lavoura e a criação de animais são atividades realizadas unicamente para consumo interno. Elaine conta que, na época do plantio e colheita, cerca de 40 pessoas se concentram nessas atividades. Os mais velhos e as crianças não participam do mutirão, as cozinheiras também ficam na casa, mas o restante do pessoal se ocupa com isso na temporada. Para Flávia, além do trabalho, essas reuniões funcionam como um momento de confraternização do grupo, já que grande parte dos moradores se reúne nas plantações.
      Em 1999, foi criada uma confecção que fabrica roupas, tapetes, colchas e outros utensílios, atividade que contribui para o sustento do povoado. Os produtos são vendidos no próprio lugar.  “A produção da fábrica também facilita o nosso vestuário. Muitas das peças que usamos são feitas aqui”, afirma Elaine.

 

      A síntese de alguns produtos de limpeza também é um fator importante para essa subsistência. Alguns moradores aprenderam, em um curso, a transformar o resto da gordura utilizada na preparação dos alimentos em sabão. Esse trabalho também é desenvolvido para consumo da comunidade, além de existir a venda para os povoados vizinhos.
      Como a verba obtida nesses segmentos não é suficiente, muitos homens trabalham nos grandes centros para complementar a arrecadação necessária na manutenção financeira de Noiva do Cordeiro. A maioria das pessoas que precisa deixar o vilarejo, seja para exercer sua profissão ou para estudar, mora em Belo Horizonte, também em uma casa comunitária, descrita por Elaine como uma república. Aroldi acredita que o número de indivíduos que trabalha fora totaliza cerca de 40 pessoas. Ele conta que elas não estão lá por sua própria vontade, mas sim pela necessidade. E Elaine concorda: “Eu acho que os planos de todo mundo, inclusive dos que estão na capital, são de morar aqui. Com tantas coisas que já conseguimos, um dia não precisaremos que ninguém more fora”, diz ela.
      A movimentação dessas pessoas entre Belo Horizonte e o vilarejo é um dos fatores que contribuem para a constante oscilação do número de habitantes de Noiva do Cordeiro, segundo Flávia. Ela mostra que, além disso, familiares e amigos que vivem em outras cidades, como Montes Claros e Desterro de Entre Rios, costumam passar algumas temporadas na comunidade, mais um elemento que dificulta a estimativa da população local.
      A falta que os habitantes do povoado sentem daqueles que vivem fora do distrito é uma dificuldade destacada por Elaine, mas ela conta que, quando “a saudade aperta”, os moradores da comunidade visitam os que estão distantes. E quem não vive mais em Noiva do Cordeiro costuma ir ao local nos fins de semana e em comemorações, como o Dia das Mães, o aniversário de Dona Delina e a Festa Junina. “Para qualquer evento que decidimos fazer, escolhemos uma data que coincida com a folga dos que moram fora, para que todos possam estar aqui”, diz Elaine.
      Além das atividades que geram lucro para os moradores, também são exercidas tarefas que não proporcionam um ganho financeiro, mas contribuem para diminuir a dependência do povoado em relação a outros lugares. “As pessoas aqui fazem o que podem pela comunidade. Sempre, alguém tem algum conhecimento, alguma coisa para doar. Então, colaboramos uns com os outros”, explica Elaine. Cortes e tinturas de cabelo, maquiagem e serviços de manicure são feitos pelos próprios moradores.


 



Categoria: Galeria e Textos
Escrito por noivadocordeiro às 00h36
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DONA DELINA, MATRIARCA DE NOIVA DO CORDEIRO

 

      delinalinda


      O relacionamento entre os habitantes é pautado pelo exemplo de uma matriarca, Delina Fernandes Pereira, conhecida como Dona Delina. Flávia afirma que ela é o elo central da comunidade. A filha da líder, Elaine, conta que todos são tratados da mesma forma pela matriarca, independentemente do parentesco que têm com ela: “A mãe   é diferente de qualquer ser humano que eu já conheci. Eu nem vou falar ‘a mãe’, vou falar Delina, pois a admiração que tenho por ela não é penas como mãe, é como uma pessoa acima disso”. Ela diz que a matriarca não passa ensinamentos através apenas de palavras, mas sim de suas atitudes, que inspiram os habitantes. Mesmo as mulheres mais velhas a enxergam como um exemplo. 
      Uma das características de Dona Delina é acolher outras famílias no vilarejo, como aconteceu com Flávia. Sua mãe nasceu em Noiva do Cordeiro, mas se casou com um membro de outro povoado e resolveu morar com ele. Flávia explica que, devido ao preconceito que existia em relação à população do local, o casal vivia em constante conflito.
      A discriminação faz parte da história da comunidade, criada por uma mulher que abandonou o marido para viver com um lavrador no fim do século XIX. A atitude da fundadora gerou hostilidade da população local, o que se perpetuou durante os anos, como explica Flávia. De acordo com ela, seu pai, envolvido pelos rumores sobre os moradores de Noiva do Cordeiro, pediu para que sua mãe escolhesse entre o casamento e o povoado onde ela nasceu. A mulher, então, optou pelo retorno ao seu vilarejo de origem, há cerca de 15 anos.
      Ao voltar, ela foi recebida pela matriarca juntamente com 11 filhos, que herdaram o sobrenome Vieira: Renata, Vilma, Léia, Valéria, Lucinete, Lucilene,  Flávia, Antônio, Fábio, Lucas e Gustavo. “Eu nunca vou esquecer essa atitude, porque, desde o dia em que Dona Delina nos colocou em sua casa, eu fui tratada como filha. Vi o que é um amor de ser humano para ser humano”, revela Flávia.
      O amparo de Delina aos visitantes fez com que sua filha, Elaine, conhecesse seu atual marido. Celso Geraldo Maciel trabalhava em uma comunidade vizinha e, um dia, precisou de um lugar para ficar. Procurou uma casa e a líder o recebeu. Com o tempo, ele passou a visitar o local. É casado com a filha de Delina há mais de um ano.

 



Categoria: Galeria e Textos
Escrito por noivadocordeiro às 23h54
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DESCRIÇÃO DA COMUNIDADE

 

      Quem chega em Noiva do Cordeiro, uma comunidade que fica a 100km de Belo Horizonte no município mineiro de Belo Vale, pode conhecer um vilarejo em que a produção interna, os objetos e a comida são compartilhados por todos os habitantes do lugar. A população do vilarejo totaliza cerca de 280 pessoas, sendo 90% composta por mulheres, de acordo com uma das moradoras do local, Flávia Emediato Vieira. O grupo se reúne para as refeições, para o lazer e para tomar decisões. Um grande casarão é o principal local de convivência, e a maioria dos indivíduos passa a noite em dormitórios comunitários.
      Na casa sede, dormem aproximadamente 50 pessoas, de acordo com o morador Aroldi Fernandes Pereira. Apesar de grande parte das pessoas viver na casa principal, outras habitações fazem parte da comunidade. O terreno onde fica o povoado, segundo ele, possui 16.2 hectares. Mas o vilarejo se estende às terras de outros familiares que também construíram residências no local, totalizando, aproximadamente, 40 hectares. Aroldi estima que o número de casas existentes em Noiva do Cordeiro seja 45.
      Um passeio pelos corredores da casa principal mostra elementos que evidenciam essa convivência em conjunto. Nos armários dos banheiros, é possível ver um emaranhado de escovas de dente. Os quartos costumam ter pelo menos duas ou três camas para atender aos moradores e visitantes. Na sala principal, encontra-se uma mesa de jantar, que foi desenhada e feita por um morador, e dá lugar a jogos entre os habitantes. Na cozinha, existe um fogão à lenha, usado para preparar refeições para um grande número de pessoas.

 

      A área externa da casa-sede é o lugar onde os grupos de crianças brincam, mulheres costuram, lavam as louças e penduram suas roupas no varal. A mangueira no terreiro proporciona sombra para aqueles que querem conversar. Uma fábrica de roupas, um chiqueiro, uma horta e diversas plantações também compõem a paisagem, além de uma casa construída em estilo colonial e envolvida por heras. Essa edificação constituía a moradia principal do vilarejo quando a população local era menor.
      Os cuidados destinados aos meninos e meninas não vêm apenas dos pais desses jovens, já que a tarefa de educar os garotos também é coletiva. Flávia conta que não tem filhos, mas se sente como se fosse mãe. “As crianças aqui não têm uma ligação só com seus pais. Eles recebem a gente, buscam a gente o tempo inteiro”, afirma ela. Elaine Fernandes Pereira, outra moradora, mostra que os jovens aprendem naturalmente a viver em comunidade. “Se você nasce em um ambiente que é desse jeito, você se acostuma. Os mais novos pegam as nossas manias, não é algo que precisa ser passado para eles”, diz. A união entre as crianças também é um ponto destacado por Elaine. Ela afirma que, quando eles visitam outros lugares, uns protegem os outros.

 

Crianças

 



Categoria: Galeria e Textos
Escrito por noivadocordeiro às 23h40
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TRANSFORMAÇÕES NA COMUNIDADE

      Aroldi cita várias mudanças ocorridas no povoado depois da retirada da Igreja. Ele diz que a comunidade era mais isolada e os visitantes não compareciam ao local até 1990. De acordo com ele, com a religião, as pessoas se uniram no povoado, mas aceitaram o afastamento de outros locais. Ele afirma que o pastor quis proteger o povo, mas dificultou o relacionamento entre as pessoas.
      O ano de 2004 também é destacado por Aroldi como um momento de transição na comunidade. Foi nessa época que o povoado elegeu uma das moradoras para trabalhar na Câmara dos Vereadores, Rosalee Fernandes Pereira. Segundo ele, o povoado enfrentou conflitos políticos, mas conseguiu colocá-la no posto. Flávia conta que o mandato da representante já terminou, mas esse período foi fundamental para atenuar a discriminação que os habitantes do vilarejo sofriam. “Com a eleição de uma vereadora, queríamos que as pessoas enxergassem a realidade, o que não acontecia antes. A gente queria mostrar a cara. Se íamos ser aceitos ou não, isso já era outra história”, afirma ela. De acordo com Flávia, essa conquista tornou mais fácil o contato com outros municípios e trouxe o bem-estar para a comunidade.
      Em julho de 2006, o vilarejo recebeu a primeira Escola de Informática e Cidadania (EIC) de Minas Gerais, como parte do programa Vale Informática, desenvolvido pela Fundação Vale do Rio Doce. A iniciativa foi feita em parceria com a ONG Comitê para Democratização da Informática (CDI). A criação da Associação Comunitária Noiva do Cordeiro, constituída para lutar pelos direitos dos moradores do vilarejo, foi uma das atividades do projeto, que instalou oito computadores em rede, um scanner e uma impressora no local. Um curso de informática foi disponibilizado para os habitantes.


  

      O jornal Estado de Minas realizou uma matéria sobre a EIC e, depois dela, surgiu uma série de publicações sobre a comunidade no mesmo veículo. Em seguida, a emissora GNT exibiu o documentário “Noivas do Cordeiro”. De acordo com Élida Dayse Leite Fernandes, outra habitante do local, a divulgação nos meios de comunicação mudou a rotina do lugar.  Após a exibição do vídeo e a veiculação dos textos no periódico, os moradores receberam doações de suprimentos e o número de visitas aumentou, incluindo pessoas de outros países, que conheceram o lugar por meio da emissora internacional. Aroldi também destaca a importância do papel da imprensa para as transformações vividas no local. “O preconceito ainda existe, mas diminuiu muito com as publicações”, comemora. Noiva do Cordeiro tornou-se fonte de inspiração para outras matérias jornalísticas, projetos de pesquisa, uma peça teatral e para o espetáculo “22 segredos”, da Cia. de Dança do Palácio das Artes.
      Uma exposição do artesanato produzido no povoado foi realizada em maio de 2007, no Salão da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, localizada no bairro Santo Agostinho. Roupas, colchas, pulseiras e colares de argilas foram alguns dos artigos que fizeram parte da feira, que ajudou a divulgar o trabalho desenvolvido pelas artesãs de Noiva do Cordeiro.
      Em agosto de 2009, o Programa
Minas Sem Fome, do governo estadual, entregou à comunidade uma batedeira de cereais para o beneficiamento de arroz, feijão e milho por meio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão de Minas Gerais (Emater-MG).


Artesanato produzido na comunidade

Artesanato produzido na comunidade


      Com a hostilidade sofrida pelo povoado ao longo dos anos, poucas pessoas tiveram a oportunidade de estudar. Hoje, essa realidade está se transformando, de acordo com Elaine. Foram criados grupos de estudos e um dos moradores, que fez ensino médio, é monitor nas aulas. “Parece que a gente voltou no tempo e a gente pensa: ‘sou criança e estou aqui na escolinha’. É muito gostoso”, mostra Elaine. E os efeitos do aprendizado já podem ser identificados. Ela conta que a matemática a ajuda nos cálculos das finanças da fábrica. O português, no vocabulário para escrever textos. As aulas também mostraram um pouco da identidade local. “Quando o grupo precisou fazer uma redação sobre a convivência entre as pessoas, a maioria dos textos era muito sentimental e romântico, assim como nós”, conclui Elaine.  Flávia diz que o estudo é importante para o crescimento da comunidade e que essa preparação traz a possibilidade de novos caminhos para os moradores.
      Apesar de tantas mudanças, a população local acredita que a essência da vida da comunidade não será transformada. É o que Elaine mostra: “Dinheiro, fama, as pessoas de fora, nada disso tem o poder de modificar o nosso jeito de viver. Nada disso vai nos influenciar, porque eu sei que não tem como a gente perder o que tem”.

 

 



Categoria: Galeria e Textos
Escrito por noivadocordeiro às 23h08
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SURGIMENTO DA COMUNIDADE

 

      Maria Senhorinha de Lima, moradora do povoado de Roças Novas estava casada há três meses com o descendente de franceses Arthur Pierre, quando decidiu abandonar o marido e viver com o lavrador Francisco Augusto Araújo Fernandes. Essa história, vivida no final do século XIX, deu início à comunidade que hoje se chama Noiva do Cordeiro.
      A atitude de Senhorinha, pouco comum para a época, fez com que o casal se tornasse alvo de preconceito. Eles se viram obrigados a deixar Roças Novas quando a segregação por parte da população local começou a aumentar. Senhorinha e Francisco foram viver em um terreno isolado, onde constituíram família. A discriminação envolveu também seus descendentes, levando-os ao isolamento de outros povoados e cidades da região.
      O nome do distrito surgiu quando o pastor Anísio Pereira, entre as décadas de 40 e 50, casou-se com Delina Fernandes, uma das netas de Dona Senhorinha. Ele fundou no vilarejo a Igreja Evangélica Noiva do Cordeiro, que também foi implantada nas cidades de Montes Claros e Desterro de Entre Rios. Flávia diz que a instalação da religião protestante foi um choque em um lugar onde predominava a fé católica.
      Os preceitos dessa corrente religiosa eram conservadores, trazendo várias restrições para os moradores, principalmente para as mulheres. Elaine comenta as dificuldades que Delina passava com as regras da Igreja: “Quando tinha religião, minha mãe sofreu muito. Ela acreditava muito ‘no pai’ e, com o que passou, eu acredito que começou a concluir que não era aquilo que a gente vivia que Deus queria. Tinha fofoca, era pregada a falsidade”. Aroldi mostra que existiam nessa época, além das imposições religiosas, problemas como a falta de alimentos para todos, a ausência de energia elétrica e dificuldades com o transporte.
      A opressão religiosa, então, se uniu ao preconceito, que crescia nos povoados vizinhos. As moças eram chamadas de prostitutas, as crianças sofriam discriminação nas escolas e os homens tinham dificuldades para conseguir emprego. A proibição da música era mais um dos desafios enfrentados pelo grupo e um episódio relacionado a essa interdição foi o fator que impulsionou a extinção da religião que oprimia o povoado.
      Para o casamento de uma das mulheres do local, foi aberta uma exceção e a música foi permitida no evento. Envolvidas com o ritmo, as pessoas que estavam presentes começaram a dançar, o que não faziam há muito tempo ou nunca tinham experimentado. A partir daí, o grupo passou a refletir sobre o sofrimento trazido com as imposições da Igreja, que dificultava a vida e o sustento no povoado.
      Insatisfeitos, os moradores decidiram extinguir a Igreja em 1990. No lugar da antiga construção, hoje está um bar. O estabelecimento é sede de encontros, festas, dança e lazer. Os integrantes do grupo passaram a viver sem religião e sem formalidades. A opressão foi substituída pela alegria proporcionada pela convivência em grupo. Hoje, o que restou da Igreja foi o vínculo entre o vilarejo e os municípios onde foi constituída. “Outras famílias, vindas de Desterro de Entre Rios e Montes Claros, também vivem aqui e são consideradas como se tivessem o nosso sangue”, conta o bisneto de Senhorinha Aroldi.
      Com o passar dos anos, Delina foi naturalmente se tornando a matriarca de Noiva do Cordeiro. Flávia acredita que a história do povoado teria sido muito diferente sem a líder. “O que temos, é por causa dela. Várias famílias daqui, sem esse apoio, tentariam a vida na cidade grande e virariam apenas mais uma parte da estatística de pobreza do país”, afirma.
      Elaine também descreve a importância de sua mãe nessa união e mostra o aprendizado de Delina com a extinção da religião. “Quando a Igreja acabou, a mãe pegou a essência do que era realmente importante, que não é você ficar fazendo oração em Igreja. Acho que agrado a Deus não fazendo uma oração, mas sendo uma pessoa melhor, ajudando os outros. Eles [os religiosos] pregam uma coisa, mas não vivem o que pregam. A gente vive e não prega”, conta.

 

 



Categoria: História
Escrito por noivadocordeiro às 22h02
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Este blog mostra um pouco da comunidade mineira de Noiva do Cordeiro. História, cotidiano, cultura e peculiaridades estão reunidos aqui para retratar esse lugar quase indescritível.